terça-feira, 15 de junho de 2010

Erros de fabricação (começo IV)

Homensizudo

Mais ou menos alto, poucos cabelos loiros, nariz grande e olhos muito, muito azuis.
Vestia sempre paletó.
Homensizudo tinha a testa franzido e não sorria muito, mas tinha sempre balas e chocolates nos bolsos e de vez em quando, chamava Aquelamenina escondido de Mulherboa e enchia as mãos de Aquelamenina de balas.
Homensizudo fumava um cigarro que ficava um tempão fazendo.
Homensizudo tinha cara de bravo mas o olhar que olhava para Aquelamenina era doce.
Aquelamenina gostava tanto de Homensizudo que doía, só não doía mais que gostar de Mulherbonita e Herói.


Mulherboa

Pequena, cabelos curtos e marrons, olhos também marrons, pele branquinha e cheiro de talco. Mulherboa não gostava muito de crianças, mas de Aquelamenina ela gostava sim!
Mulherboa sempre dizia à Aquelamenina para escovar os dentes depois do almoço, não mascar chicletes e tirar a franja dos olhos. Aquelamenina sempre ganhava blusas feitas com agulhas e lãs por Mulherboa.
Mulherboa era engraçada às vezes!
Aquelamenina gostava tanto de Mulherboa que doía, só não doías mais que gostar de Mulherbonita e Herói.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Erros de fabricação (começo III)


HERÓI
Era mais ou menos alto, seus cabelos eram fartos e pretos, as sobrancelhas eram grossas e o olhar que Herói olhava para Aquelamenina era olhar de quem ama.
Aquelamenina gostava tanto de Herói, tanto que doía.
No colo de Herói, Aquelamenina sentia que nada ruim poderia acontecer.
Ele contava histórias e trazia uns joguinhos difíceis de jogar.
E a primeira boneca de Aquelamenina, foi Herói quem trouxe.
Triste mesmo é que sempre chegava a hora de ir embora! Herói tinha que voltar pra casa sem cor. Essa hora era de dor doida!
No outro dia Herói sempre voltava e a dor doída, passava.

Herói foi a primeira paixão de Aquelamenina.



MULHERBONITA
Mais ou menos alta, cabelos castanhos, curtos e com cheiro de laquê. Unhas grandes e pintadas. Sapatos para ficar mais alta. Tinha sempre batom na boca de Mulherbonita e o seu cheiro era cheiro perfumado.
Tudo de Mulherbonita era bonito, o cabelo, as unhas, os sapatos e o jeito como olhava Aquelamenina.
Aquelamenina não cançava de olhar Mulherbonita. Passear de mãos dadas pelas lojas era diversão garantida. Outro lugar bem bacana e que sempre iam era no salão de beleza e de vez em quando Mulherbonita pedia para a Moça arrumar os cabelos de Aquelamenina.
Aquelamenina gostava tanto de mulherbonita, que doía. Só não doía tanto quanto gostar de Herói.

*( Escultura de Kaline Kloster)

Sobre a imagem do post anterior

DALA
Escultura em papietagem, utilizando também embalagens descartadas para estruturar a PEÇA.
Artista: KALINE KLOSTER

Erros de fabricação (ComeçoII)


Havia também a casa branca. No quintal da casa branca moravam gatos ariscos, gatos ariscos fogem de carinhos.
A casa branca não tinha jardim e era fria. Maravam lá o Homensizudo, Mulherboa e duas irmãs: Moçalegre e Moçabida. O namorado de Moçalegre era lindo e bacana. Aquelamenina sonhava um dia se casar com ele.
Moçabida era inteligente e vivia fazendo perguntas difíceis à Aquelamenina.
O que tinha de chato na casa branca era que as horas eram marcadas e doces faziam mal para os dentes.
Aquele lugar era calmo!

O azedo do limão e das frutas verdes colhidas no quintal da casa azul eram pratos prediletos de Aquelamenina.
As pessoas grandes diziam que se comesse manga verde e depois bebesse leite, morria.
Um dia, Aquelamenina, V e W entraram sorrateiramente na cozinha vermelha da casa azul, pegaram sal, correram para o quintal e saborearam quatro ou cinco mangas verdes.
Escondidos!
Depois do fim das mangas, M os chamou para o lanche da tarde, com leite gordo que vinha em garrafas.
Aquelamenina chorou com medo de morrer. No entanto, depois de ter comido manga verde com sal e bebido leite gordo de garrafa, Aquelamenina não morreu. Nem ela, nem V, nem W.
Pessoas grandes mentem! Pensou Aquelamenina.

Aquelamenina observava o mundo e as pessoas grandes o tempo todo.
O mundo, às vezes, parecia cinza e as pessoas grandes, bejes.
às vezes também, Aquelamenina era triste.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Erros de fabricação (começo I)

Começo a escrever, como se pudesse exorcizar os demônios e os anjos...

O dia em que nasceu Aquelamenina era dia feliz!
Mas a caixa d'água da pequena e alta cidade caiu.
Os olhos eram azuis e o nariz arrebitado, Aquelamenina era branca como o vazio. Coração sensível e caixinha de lágrimas maior que o necessário.

Os jardins eram seus lugares preferidos para as brincadeiras imaginárias e os arbustos cheirozos, da casa sem cor, se transformavam em amigos e lugares. Nesse tempo Solidão era bem vinda.O cheiro de manjericão vindo da cozinha da casa,. roncava sua barriga de fome.Na casa sem cor moravam o Herói e a Mulherbonita, Herói era gentil, engraçado e encantador.
Aquele lugar era feliz e mágico! A única coisa chata era comer melancia com sal e às vezes dormir depois do almoço.

Vestido xadrez de vermelho e verde, meias 3/4, sapato colegial.Era assim a roupa que Aquelamenina vestia para ir ao lugar de aprender. Mulheres com roupas brancas, um tipo de véu e cara de malvadas causavam um pouco de medo em Aquelamenina. Mas, a moça bonita com nome engraçado era gentil e atenciosa.
O cheiro da massa de modelar hipnotizava.
As mulheres de branco colocavam as crianças de castigo.
E as crianças andavam com botões pregados nos vestidos xadrez. Eram botões vermelhos, verdes ou amarelos. Os vermelhos eram usados pelas crianças burras - era assim mesmo que se dizia - os verdes, pelas crianças menos burras e os amarelos pelas crianças inteligentes.
O botão de Aquelamenina sempre foi o amarelo. Ela morria de medo de ser burra!
Tinham também que rezar. E quase todas as coisas que as crianças faziam eram pecados.
No dia que tinha sonho recheado de goiabada e soda limonada, quem não tivesse dinheiro não podia comer.
Mas todo mundo rezava antes de só alguns comerem os sonhos e beberem a soda limonada.
Era muito chato quando Aquelamenina não tinha o dinheiro.A merenda da lancheira não era tão gostosa quanto o sonho de goiabada que as crianças que tinham dinheiro comiam.
As mulheres de branco ensinavam que deus era bravo e castigava crianças desobedientes.
Ainda bem que Aquelamenina era obediente!Ela morria de medo de ir para o inferno.
Aquele lugar era um pouco amedrontador.

Na grande seringueira da casa azul havia bezouros enormes. As margaridas rodeavam as cercas brancas da casa azul. Aquelamenina passava horas capturando joaninhas em caixinhas de fósforos. Depois de contadas, as joaninhas ganhavam novamente a liberdade.
Na casa azul, moravam 6 pessoas: M, P, V, W, F e Aquelamenina.
M era muito ocupada (vassouras e pratos), P era difícil estar (garrafas), V não era amiga, W amigo, F chorava muito e Aquelamenina tinha medo (de quase tudo).
No quintal da casa azul, o cheiro era de terra e churrasco.As brincadeiras eram com V e W, F era pequeno demais!
Um pé de café. Era embaixo dele que as galinhas botavam ovos.
Dentro da casa azul de madeira, a cozinha era vermelha e sempre tinha cheiro de bolo.
Couros de boi serviam de tapetes da sala.

Do quarto de Aquelamenina, nenhuma recordação.